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 BAHIA | Perueiros clandestinos se multiplicam em Salvador

Por: Notícias Portal InterBuss / Portal InterBuss
– E o cinto de segurança?
Sentado no carona, ao lado do motorista, pegamos uma van em frente à estação de trens da Calçada. Faltava o cinto. O cobrador, de 16 anos, desdenhou:
– Não precisa não…
Explicamos o motivo da preocupação:
– Não é por nada não… Mas se a fiscalização parar…
Então, o próprio motorista se entregou:
– Se alguém parar, leva logo preso o carro todo…
– Leva preso, é? Por quê?
– Transporte clandestino…
Com uma câmera escondida, gravamos esse e outros flagrantes de um problema que parece uma praga urbana: o transporte clandestino em Salvador. Segundo a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), em todo o ano passado, cerca de  mil clandestinos foram apreendidos. Somente nos primeiros meses de 2017, um total de 400 já foi levado para o pátio e multado. Ainda de acordo com a Semob, 2,5 milhões de usuários utilizam veículos clandestinos todos os meses na capital.
Rodamos a cidade em busca de vans – as populares topics –  além de micro-ônibus e carros comuns que burlam a fiscalização e fazem transporte coletivo sem qualquer regulamentação na capital baiana. São veículos velhos e sem manutenção – um universo de insegurança para os passageiros e um meio marcado também pelo trabalho infantil.
Os clandestinos estão por toda a parte, da Calçada ao Centro, da Liberdade à Fazenda Grande, do Aeroporto à Rodoviária (veja ao lado mapa dos principais locais). O número de veículos que transportam clandestinamente hoje em Salvador é tão grande que, como mostrou o motorista, eles não têm sequer vergonha de esconder. Boa parte das vans tem placas do interior e da Região Metropolitana.
– Caminho de Areia, Ribeira, até o Saveiro! Bora!
Aos gritos, logo cedo, um jovem convoca os usuários para uma viagem da Calçada à Ribeira por R$ 3,60, mesmo valor do ônibus. No Iguatemi, no final da tarde, outro rapaz chama – pendurado na porta aberta de uma van velha – para outro destino:
– Aê, ó! Fazenda Grande do Retiro, subindo a ladeira!
A promessa de todos é de menos espera no ponto, mais conforto e rapidez. Mas, por trás da aparência de um serviço de qualidade, existem riscos aos usuários.
– Peguei uma topic dia desses que não conseguiu subir a ladeira da Terezinha (Alto da Terezinha, no Subúrbio). Tem muito carro velho rodando.
Além de veículos antigos e sem qualquer manutenção, potenciais causadores de acidentes, a segurança e integridade física dos passageiros é o tempo todo colocada em cheque diante de motoristas e cobradores desconhecidos. Encontramos gente que viveu experiências assustadoras dentro de clandestinos.
– Rapaz, roubam aí dentro! Eu já vi! É terror! Não entro mais em uma miséria dessas!
O motorista da van que pegamos da Calçada para a Ribeira iniciou a viagem falando ao celular. A conversa durou uns cinco minutos antes de parar em um posto de combustíveis para abastecer. O motorista diz que os clandestinos se multiplicaram nos últimos meses.
– O país nessa recessão… Aí todo mundo compra seu carrinho para tirar um por fora.
Ele está no ramo há 25 anos e se mostrou satisfeito com a fiscalização frouxa, na quinta-feira da semana retrasada.
– Esta semana eles (os fiscais) não saíram, não. Segunda-feira eles tiram o atrasado. Quando pegam no pé, dão tiro na gente e tudo. Eles andam com polícia dentro do carro da Transalvador.
Troco
Perto de descer, na Enseada dos Tanheiros, na Ribeira, descobrimos que o cobrador era menor de idade. Tinha 16 anos. Encontramos um ainda mais jovem. Na Avenida Suburbana, um menino de 13 anos era quem convocava os passageiros e contava o dinheiro para dar o troco. O trabalho infantil entre os clandestinos é comum (ver página ao lado).
Descemos no final de linha de Rio Sena, onde outras cinco vans estavam paradas esperando um horário mais movimentado. Fomos descobertos:
– Ele está filmando tudo…
Tivemos que sair rápido, de mototáxi. Voltamos à Suburbana, onde as vans circulam dia e noite. Desde as 5h é possível ir ao trabalho no Centro de Salvador a bordo de uma utilitária sem qualquer identificação ou registro. Na volta, elas passam novamente e levam passageiros para bairros como Plataforma, Rio Sena, Alto da Terezinha, Periperi e Paripe.
Assim também acontece no Largo do Tanque rumo a Liberdade ou São Caetano. Da mesma forma se vê no Retiro rumo a Fazenda Grande. Gravamos em vídeo flagrantes de clandestinos em todos esses lugares. Mas no Centro da cidade é onde elas mais se concentram. A Rua Carlos Gomes é o paraíso dos clandestinos. Vão para diversos bairros.
– Comércio, Calçada, Massaranduba, Ribeira!
– Suburbana, Periperi! Rio Sena, Terezinha!
Ali, uma usuária discutia com o cobrador de uma
van que atrapalhava o trânsito e impedia os ônibus de encostarem. Mesmo com o veículo estacionado na diagonal,
atrapalhando os ônibus, um carro da Transalvador passa
e nada faz. A mulher reclama:
– Os ônibus estão passando por fora por causa deles. Se acham no direito de parar no meio da rua. Carnaval acabou.
Na Praça da Piedade, bem em frente à igreja homônima, dezenas de vans circulam o dia inteiro. A maioria vem de Nazaré e segue pelo Campo Grande, Federação e Campo Santo até o Engenho Velho da Federação. Uma das usuárias da linha conta que, certa vez, o motorista solicitou que todos descessem do veículo. Estava com receio da fiscalização.
– Ele devolveu o dinheiro de todo mundo e pediu que a gente descesse na frente do Fórum. Disse que tinha informações que a fiscalização estava logo à frente.
Carros
Além de vans, micro-ônibus e outros utilitários, em Salvador há também pontos em que se concentram carros comuns que transportam passageiros para outros bairros e até para cidades do interior. Na Rodoviária, dezenas de motoristas “vendem” seus serviços na área em que param os coletivos, antes de os usuários entrarem no terminal. Deixam seus carros parados nas redondezas da estação e anunciam a viagem:
– Feira! Feira! Feira!
Tem também para Amélia Rodrigues, Irará e Conceição de Feira. Conversamos com três clandestinos. Um deles diz que dispõe de diversos veículos. Cobra R$ 25 até Feira de Santana.
– Desde 4 horas da manhã tem carro aqui. De Fusca a Corola, você escolhe.
Os donos de carros também atuam muito no Aeroporto e na BR-324. Reginaldo Cohin, dono de um táxi da empresa Commtas, no Aeroporto, combate a prática dos clandestinos há anos.
– Eles são uma praga. À noite se reproduzem. Oferecem o serviço mais barato e cheio de riscos aos passageiros. São perigosos e andam armados.
Na BR, na passarela que fica antes da região da Brasilgás, uma fila de carros também chama a atenção. Fazem transporte clandestino para Feira, enquanto muitas vans, também clandestinas, seguem para Simões Filho. Um dos donos de carro nos ofereceu serviço:
– É R$ 25… Você chega em uma hora. De ônibus, da Rodoviária, não vai levar menos de uma hora e meia.

Liminar dificulta fiscalização
No combate aos clandestinos, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) afirma que ganhou mais um adversário: a Justiça. Após apreender 400 veículos somente nos primeiros meses deste ano, uma decisão judicial, de 30 dias atrás, teria dificultado ainda mais a fiscalização.

“A decisão liminar de uma cooperativa do subúrbio permite que uma determinada cooperativa possa fazer transporte em toda a área. Acontece que todo mundo agora diz que faz parte dessa cooperativa específica”, explica o secretário da Semob, Fábio Mota. “Essa cooperativa não tem regulamentação, não sabemos quem são esses carros”.
O secretário também explica que a decisão judicial que favoreceu o aplicativo Uber também facilitou a vida dos clandestinos. Como não há regulamentação municipal, não se sabe quem é Uber e quem não é.
“Agora, quando você faz a abordagem, o cara diz que é Uber. Como eu não tenho a relação de quem é Uber de fato, não tenho como fazer a fiscalização porque estou impedido por decisão judicial”, explicou o secretário. “Essas duas decisões nos últimos 60 dias impactaram muito no combate ao transporte clandestino”, disse ele.
Em nota, a Semob informou que veículos flagrados fazendo transporte clandestino devem ser apreendidos e pagam multa no valor de R$ 2,5 mil na primeira ocorrência. No caso de reincidência, o valor é dobrado. O motorista ainda precisa pagar pela remoção do veículo e diária no pátio da Transalvador. Segundo o órgão, “as operações acontecem diariamente, de segunda a sexta”. “Todas as operações são feitas com apoio da Polícia Militar, até porque muitos clandestinos andam armados”.

• Com informações do Correio da Bahia.


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