FORTALEZA/CE • Transporte coletivo traz dor de cabeça ao usuário

O caos nosso de cada dia no trânsito seria resolvido caso as pessoas que têm carro optassem pelo transporte público? Mas será que o número de coletivos seria suficiente para comportar todos nas horas mais movimentadas? Em Fortaleza, o carro é sinônimo de status ou de necessidade? Por que a bicicleta ainda não é uma alternativa de locomoção? Não a utilizamos porque as ciclovias são insuficientes ou porque tal prática não nos interessa? O futuro metrô vai melhorar a vida dos fortalezenses? Como será o trânsito na Copa do Mundo?

São muitas as questões que giram em torno da mobilidade ou, por que não dizer, imobilidade urbana da Capital? O problema afeta a todos, seja quem anda em transporte público ou particular. No entanto, para quem tem o coletivo como o único meio de locomoção, o estresse é maior e o sentimento em relação a uma possível melhoria é de descrença.

Ônibus que demoram, filas que dão curvas e se misturam às outras, empurra-empurra para entrar no veículo, desorganização, desrespeito, discussão, gente espremida nas portas dos coletivos para não chegar tarde no trabalho e motoristas que realizam o desembarque de passageiros onde não deveriam. Essa é a realidade dos terminais da cidade nos horários de pico.

“Quando saio de casa, às 5h, já pego o ônibus lotado e sempre vou em pé. No terminal, pego outro coletivo cheio e vou em pé de novo. Saio do trabalho às 17 h e, mais uma vez, não vou sentado”, reclama o mestre de obras José Cirilo da Silva, 53.

Na opinião dele, que mora em Messejana e trabalha no Papicu, a frota de ônibus deveria ser maior. “A briga por um espaço no coletivo é grande. A gente paga R$ 2 por uma passagem que se torna cara porque ninguém anda com conforto”. Já o auxiliar de costureira Rondinele Soares Lima, 25, se maldiz da baixa frequência dos ônibus no Castelão, bairro onde mora. “Se eu perder o que passa às 6h, tenho que esperar mais 40 minutos pelo outro. O jeito é andar espremido para não levar bronca do patrão. Quando chego no trabalho, é como se não tivesse tomado banho”, brinca, dizendo que está economizando dinheiro para comprar uma moto.

Condições de trânsito

Para o presidente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), Ademar Gondim, as lotações nos ônibus na Capital se restringem a algumas linhas e acontecem apenas nos horários de pico. Pela manhã, das 5h30 às 7h30, e à tarde, das 16h30 às 19h30. Segundo ele, existem 1.390 em Fortaleza.

Por isso, acredita que o problema da cidade não é a falta de ônibus, mas as difíceis condições de trânsito, que impossibilitam os coletivos de trafegar numa velocidade maior. “Se colocarmos mais veículos nas ruas, é só para eles ficarem parados”, argumenta Gondim. O presidente da Etufor acrescenta que as faixas prioritárias e corredores exclusivos para ônibus e vans em algumas vias da cidade – que devem ser implantadas ainda neste ano – irão melhorar a vida daqueles que utilizam o transporte público diariamente.

Atualmente, a velocidade média dos ônibus em Fortaleza é de 10 a 12 Km/h. A expectativa é de que, com a implantação das faixas e corredores, essa média suba para 20K/h. Ademar Gondim considera que o carro ainda é uma alternativa barata e atraente, pois, no veículo particular, o condutor tem mais privacidade e ainda pode estacionar por um preço acessível. “Isso quando os motoristas não colocam os veículos nas ruas”, destaca.

Ele também informa que ações para evitar tal prática são trabalhadas pela Etufor e pela a Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania de Fortaleza (AMC). Acrescenta que vários projetos estão em execução pelo órgão e serão analisados pela Prefeitura.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
As duas faces da mesma moeda

Expectativas de que o transporte público pode nos salvar do trânsito no cotidiano soam ingênuas diante de um problema que passa sobretudo pela nossa relação com a cidade e com o espaço público. Trata-se de criar conexões intersetoriais para os problemas urbanos no que diz respeito às interfaces de nossas vidas como trabalho, educação, lazer, saúde e moradia. Ações isoladas repercutem também isoladamente.

Pensar transporte e trânsito é, de fato, pensar mobilidade, que chamo de humana, ou seja, voltada para as pessoas e não como as formas que se deslocam. Mobilidade é ampla e complexa, porque é assim o tecido cotidiano de nossas vidas. O que vigora hoje na cidade de Fortaleza tem melhorado com o tempo, mas ainda de forma lenta e, quando se conclui a execução de um projeto, a realidade não mais comporta as soluções, porque são outras as prioridades. Quando será possível antecipar-se aos problemas, planejar, cuidar da cidade? Leis não nos faltam. Recentemente, foi aprovada a Lei 12.587/2012, que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana Sustentável, em que prioriza o transporte público e o não-motorizado. O município precisa, no entanto, construir, de forma coletiva e participativa, seu plano de mobilidade sustentável, previsto no Estatuto das Cidades, no Plano Diretor, obrigatório para cidades com mais de 500 mil habitantes.

O Guia PlanMob, desenvolvido pelo Ministério das Cidades, oferece orientações atualizadas para a criação do Plano de Mobilidade dos municípios. Em Fortaleza, temos o projeto Transfor em execução, mas não possuímos um plano participativo de mobilidade atualizado. O enfrentamento ao problema gerado pelo transporte individual motorizado necessita de esforços conjuntos, agilidade, vontade política e coragem na inversão da lógica vigente. Temos legislação para isso. Para concretizar não é preciso lançar a sorte no ar. Cabe agora fazer.

Gislene Maia de Macêdo
Doutora em Psicologia do Trânsito e Profª da UFC

Transfor vai priorizar coletivos

Baseado nos conceitos de coletividade, mobilidade urbana sustentável e acessibilidade universal, o Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor) foi implantado na cidade em 2007 com o objetivo de priorizar o transporte público, diminuindo o tempo das viagens, os custos do transporte, o tempo de embarque e desembarque dos passageiros, além de aumentar a segurança no trânsito de veículos e pedestres.

A primeira etapa do programa, conforme a Prefeitura, está em andamento desde maio de 2008, com a execução de alargamentos, restaurações viárias, implantação do corredor Antônio Bezerra-Papicu, interligando os dois terminais, que também serão ampliados. Estão previstas ainda as construções de túneis e viadutos em algumas vias.

No total, informa o órgão, são 45 Km de corredores de transporte, 14 Km de duplicações e alargamentos viários, 23 Km de restaurações viárias, 30 km de ciclovias, 82 Km de rede de drenagem, 164 Km de calçadas padronizadas e acessíveis, ampliação e humanização de quatro terminais de integração, obras como túneis, viadutos, passarelas e 122 semáforos inteligentes, por exemplo. O Transfor informa que irá priorizar o transporte público, com a implantação dos corredores exclusivos para a sua circulação: Antônio Bezerra/Papicu, Augusto dos Anjos/José Bastos e Senador Fernandes Távora/Expedicionários.

Já a segunda etapa inclui os corredores Siqueira-Centro e Conjunto Ceará-Centro, com a ampliação dos terminais do Siqueira e da Parangaba, túnel no cruzamento das vias Eduardo Perdigão com Osório de Paiva (Parangaba). Haverá também restauração de vias. Já o 1º Anel Viário será alargado no trecho entre as vias Padre Cícero e Bezerra de Menezes (Benfica/Farias Brito/Parque Araxá/Rodolfo Teófilo).

O Transfor prevê a construção de mais 30 Km de ciclovias na cidade. Hoje, Fortaleza conta com 67 Km, incluindo 2Km já implantados pelo Transfor na Avenida Mister Hull.

A implantação de bicicletários nos terminais também está prevista para permitir a integração com os ônibus.

A previsão é de que todas as obras estejam prontas até o fim deste ano, quando termina a gestão da prefeita Luizianne Lins. O prazo preocupa, pois ainda há muito a ser realizado.

• do Diário do Nordeste

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